
“…A noite estava fria, como quase todas as noites de Natal. Descia a Avenida Almirante Reis, quando parei no semáforo que estava vermelho, no cruzamento com a Pascoal de Melo. Olhei para a porta da Portugália, onde os funcionários iam saindo, desejando um bom Natal entre si, todos eles levavam na mão uma caixa de garrafas de vinho ou champanhe, oferta da entidade patronal, tradição da época. Ao mesmo tempo, senti o cheiro do velho bife à Portugália, que saudades desses tempos, bife e imperiais, e como entrada, uns croquetes barrados a mostarda, na companhia de bons amigos, senti a saudade desses tempos e daqueles amigos. Estava ansioso por chegar a casa, tinha a família à espera, mas como sempre estava atrasado, nunca conseguia passar o trabalho para segundo plano. No banco de trás iam as prendas que compensariam as minhas ausências e atrasos, este ano conseguira comprar todas as prendas de acordo com o que a família tinha dado sinal. No interior do carro, o cheiro do bolo-rei que tinha ido buscar à pastelaria perto do escritório, adocicava o ambiente do habitáculo, finalmente começava a sentir o Natal desse ano. Enquanto esperava que o semáforo ficasse verde, os meus olhos corriam toda rua, gente que corria para todo o lado e lado nenhum, a hora das famílias se reunirem em volta de uma mesa cheia de iguarias aproximava-se a passos largos. À porta de um prédio devoluto, reparei num Homem embrulhado numas mantas. Fiquei a olhar para ele, como seria possível alguém viver naquelas condições, sem ninguém nem nada que o confortasse, afinal era noite de Natal. Onde estaria a sua família? O que lhe teria acontecido? Como se deixara chegar aquela condição, droga, álcool? – Interrogava-me eu, enquanto observava a quantidade de sacos plásticos à sua volta, onde ele ia remexendo procurando algo, vi-o tirar de um deles qualquer coisa que levou à boca, um naco de não sei o quê. Senti um aperto no peito, em minha casa, há dias que se discutia se o bacalhau seria melhor cozido, ou com natas, se era melhor fazer filhoses ou sonhos, e aquele pobre homem, apenas tinha um naco de nada para comer… Próximo de si, um pequeno cãozito aproximava-se lentamente, tremia de frio, parou à frente do Homem, ficaram a olhar um para o outro. O homem balbuciou qualquer coisa para o cão que eu não entendi, - coitado, nem o cão tem sorte! Pensei eu. O Homem levantou um lado da manta e chamou o cão, que sem hesitar se aninhou a seu lado a coberto da manta. De um dos sacos de plástico, tirou uma tijela que encheu de leite, de um pacote que tirara de outro saco, colocando-a em frente do canito que o bebeu sofregamente, enquanto o Homem lhe acariciava a cabeça. Vi-o desembrulhar qualquer coisa de um guardanapo de papel, que partiu ao meio, ficando com uma parte e dando a outra ao cão. Ao ver aquilo, não me contive e deixei as lagrimas correrem no rosto. Perante aquela imagem senti-me inútil, como seria possível que a sociedade onde eu vivo, que se diz esclarecida e evoluída, permitia que um ser humano demonstre mais Humanidade pelo bem-estar de um cão, enquanto do seu semelhante, apenas recebe indiferença…”
Embora não seja possivel matar a fome a toda a gente que cruza nosso caminho,é sempre possivel esticar a mão a alguém. Face á situação,a lágrima correu no rosto,mas não foi ponderado poder cerder o "Bolo Rei"uma vez que em casa ainda haveria outros doces tradicionais da quadra,podendo assim aquecer,nem que por pouco tempo o coração e a alma de alguém.Assim......
ResponderEliminar...a sociedade onde eu vivo, que se diz esclarecida e evoluída, permitia que um ser humano demonstre mais Humanidade pelo bem-estar de um cão, enquanto do seu semelhante, apenas recebe indiferença…”
Este texto é apenas parte de um todo, onde muita coisa se passa e uma vida é contada, mas o que diz não anda longe de uma passagem desta história.
EliminarObrigado pelo comentário
Apenas para levantar um pouco do veu desta história, o Homem e o cão, passam a noite de Natal à mesa com uma familia e é lhe dada a oportunidade de refazer a sua vida
ResponderEliminarPaulo Silva