domingo, 25 de julho de 2010

A história que ficou por contar


Pela vidraça da sala, o velho António admirava a neve que caía sobre as árvores, lá fora fazia frio, não se via ninguém na rua, apenas o manto branco preenchia o seu olhar. Dirigiu-se à lareira para colocar mais um toro de lenha ao lume, como estava quentinha a sala, no ar, o cheiro das azevias abria-lhe o apetite pelas guloseimas da época, as filhoses, os sonhos de grão, as rabanadas que a Dona Joana tão bem sabia fazer, faziam-no sentir a quadra.
O Natal era a época que o velho António, mais feliz se sentia, tinha a família junto dele, e especialmente o André, o neto de quatro anos.
Serviu-se de um cálice de Porto, sentou-se no cadeirão junto à lareira, pegou no livro que andava a ler... e na altura que colocou os óculos, a vista já lhe ia falhando ao perto, entrou o pequeno André na sala.
- Avô, tenho sono...
- Onde está a tua mãe? Perguntou o velho António.
- ÒH, está a fazer bolinhos mais a Avó.
- Ela que pare um bocadinho para te ir por a dormir a sesta, tentava o velho António convencer o André.
-Não sabes que não pode, depois não há bolinhos.
- Comemos aqueles que a Avó fizer.
- Mas a Avó não sabe fazer aquele de nozes que tu gostas quando vens lá casa.
- Pronto, ganhastes, deita-te lá no sofá e tapa-te.
- Avó, e não contas uma história?
- André, afinal tu queres dormir ou queres ouvir histórias? O Avô não sabe contar histórias.
- Não faz mal, inventas uma, a mãe quando já não sabe histórias, inventa.
- És danado rapazola…, anda cá senta aqui no colo do Avó.
O pequeno André sentou-se ao colo do velho António, junto da lareira, cobriu o corpo com a manta e esperou o início da história.
Era uma vez um senhor que conduzia comboios…
- Comboios como aqueles da minha pista que tu me ofereces-te.
- Isso, eram desses comboios.
- Todos os dias aquele senhor levantava-se muito cedo, ainda o Sol dormia quando saia de casa para cuidar da horta, dizia ele, que os regueiros tinham que estar em condições todos os dias, para que a terra agradecendo o tratamento que recebia, lhe oferecesse os frutos, os legumes, e até as rosas que a sua mulher tanto gostava, trabalho que fazia com todo o gosto diariamente, antes de ir para os comandos do Comboio.
- Avô, o comboio fazia UUUU, pouca terra, pouca terra, UUUU…
- Fazia, mas queres ouvir o resto.
- Quero, conta.
- Tratava da horta até o Sol nascer, depois montava a bicicleta e ia para a estação dos comboios.
Quando lá chegava, estavam à espera da partida do comboio as mesmas caras de todos os dias, eram aqueles que trabalhavam ou estudavam na cidade grande.
- Bom dia Albano, cumprimentava o senhor, o fogueiro que há tantos anos alimentava a caldeira da sua locomotiva, ora pondo carvão, ora abrindo e fechando as válvulas de pressão. Ao fim do dia a sua tez branca estaria toda negra da fuligem da caldeira.
- Bom dia Mestre, respondia o pobre do Albano timidamente, perante um rosto tão sisudo, o mestre maquinista não era homem de muitas falas, dizia o que tinha para dizer e pouco mais, dizia ele que se perdia muito quando se diziam coisas e que se ganhava muito quando se falava. As palavras deviam ser sempre faladas, assim não se diriam tantas tontearias. Mas quem o conhecia bem, sabia que aquele ar, eram apenas as suas feições, não reflectiam a sua generosidade perante as agruras da vida.
Muito ligado à família e pouco à convivência com os amigos, dava a sensação aos outros que era uma pessoa pouco afável, mas a família, o trabalho, a horta e o corpo de bombeiros, preenchiam-lhe os seus dias.
- Avô, o senhor não tinha amigos?
- Tinha, muitos amigos. Todos aqueles que com ele lidavam diariamente sabiam o quanto aquele senhor prezava e respeitava a amizade.
- Sabiam? Perguntava curiosamente o pequeno André.
- Todos os dias o mestre maquinista, trazia da horta um pequeno cabaz, com frutas, hortaliças, feijões, e entregava, umas vezes ao Albano, outras a outros funcionários da estação.
- Albano, a minha patroa manda isto, diz que é para os teus pequenos.
- Agradeça por mim à senhora sua esposa, agradecia o Albano, o jeito que aquele cabaz dava lá em casa, para alimentar os seus cinco filhos. O vencimento não era grande, os tempos eram difíceis e todas as ajudas eram poucas.
- Como sempre o comboio partiu pontualmente às oito horas, levando as gentes para a cidade grande, durante o dia, faria o mesmo trajecto mais três vezes. Ao princípio da noite traria de novo as mesmas gentes de volta à estação da terra, todas com um ar mais cansado e desejosas de chegar a casa.
Chegava a casa já pouco passava das vinte e uma horas, a pequena Ana já tinha jantado, a sua mulher aguardava o mestre maquinista para lhe fazer companhia durante o jantar.
Enquanto comiam, iam conversando sobre os acontecimentos do dia, ajudava a pequena Ana nos deveres da escola...
- Quem era a Ana? Perguntou o pequeno André.
- Era a filha do mestre maquinista.
Depois da janta sentavam-se os três no sofá da sala para desfrutar da companhia uns dos outros, mas as horas passavam rapidamente, A pequena Ana...
- A menina era bonita Avó?
- Era linda, parecia uma Princesa. A pequena Ana, pedia todas as noites ao pai, que lhe contasse uma história antes de adormecer, mas a resposta do mestre era sempre a mesma.
- Filha o pai está cansado, a mãe conta-te uma história. Dia após dia a resposta era sempre a mesma, a mãe conta…
O mestre maquinista nunca teve tempo para contar uma história à pequena Ana. Os anos passaram sem o mestre maquinista ter tido noção. No dia em que entrou de braço dado com a Ana em direcção ao altar da Igreja da terra, perguntou a si próprio, como era possível que aquela mulher que lhe dava o braço, ainda ontem lhe pedira para contar uma história de embalar.
- A menina ia casar? Perguntava o pequeno André.
- Sim, já ia casar.
O velho António ia continuando a contar a história, sobre os comboios, enquanto o pequeno André já dava sinais de sonolência, os olhos iam piscando aos poucos, enquanto a voz do avó ia ficando cada vez mais longe... – e pelos trilhos de ferro o comboio deslizava no meio da pradaria... ia contando o Velho António, mas o André já sonhava com o apito da locomotiva, UUUuuuuu.UUUuuuu...pouca terra...pouca terra.
António ao ver o André de olhos fechados aconchegou-o ao seu peito e tentou dormitar também, pensando na pequena Ana que nunca ouvira uma história contada pelo pai.
Na cozinha, no meio de tachos e panelas, ouviu-se a campainha da porta, – filha podes ir abrir, perguntou a Dona Joana, não obtendo resposta dirigiu-se à entrada para ver quem era. Enquanto isso a filha da Dona Joana encostada na ombreira da porta da sala, olhava na direcção do cadeirão onde o Velho António adormecia o seu filho. – Estás ai filha, dizia a Dona Joana, caminhado na sua direcção.
- Estou aqui mãe, respondeu a filha da Dona Joana, enquanto limpava uma lágrima que lhe corria na face, – estive a ouvir uma história contada pelo meu pai, quem era?
- Era o pobre do rapaz das entregas, coitado, com este tempo e andar por ai na rua, trouxe as lembranças de todos os anos, dois cabazes cheios de iguarias, um do Dr. Francisco, o filho do Albano que trabalhou com o teu pai, e o outro do sindicato dos ferroviários.
- Nunca se esquecem do meu Pai.







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