domingo, 15 de agosto de 2010

“…Tantos anos passados, e tudo continuava na mesma. As árvores, as plantas, os bancos do jardim, tudo estava como há tantos anos atrás. Aquele homem a quem os anos deram tantas memórias, quis recordar uma parte do seu passado, percorreu as ruas do jardim onde em tempos brincou, namorou, fez juras de amor, onde perdeu um grande amor.
Procurou o banco que em tempos, trocou os primeiros beijos, carinhos, promessas. Mantinha-se exactamente no mesmo local, ladeado por dois enormes eucaliptos, aquele banco que à muito servia quem visitava o jardim, a sua madeira gasta mantinha a mesma resistência, os nomes de namorados gravados na sua seiva, davam memória àquele banco. Sentou-se e contemplou o ambiente à sua volta, tudo estava igual, apenas ele se sentia diferente. No parque infantil, as crianças brincavam como ele tantas vezes brincou, a sua alegria contagiava quem circulava naquele espaço, os casais de namorados, que desligados do mundo, apenas viam quem amavam, os idosos, que aproveitando as sombras das árvores, conviviam não se deixando dominar pela idade. Sentou-se, fechou os olhos por breves instantes, reviu momentos vividos naquele local, sentiu os cheiros, ouviu as vozes, viu as feições daqueles que partilharam aquele espaço consigo.
Aquele jardim voltou a fazer parte dos seus passeios diários, sentar-se uns minutos naquele banco e reviver aquele período da sua juventude era agora parte do seu dia. Nem tudo eram boas recordações, a dor que ainda hoje sentia quando recordava o dia em que sentado naquele banco, aguardando a chegada da sua amada, viu vir na sua direcção numa louca correria o seu amigo Alfredo!
– André, anda comigo, tenho que falar contigo…
- Que se passa, não posso sair daqui, estou à espera da Helena.
-Não amigo, ela não vem mais…
Aquele dia marcou-lhe a vida, apesar de ter construído uma família, a paixão por Helena nunca o viria a abandonar.
Um dia, estando ele sentado no banco das suas memórias a recordar aqueles dias, uma senhora dirigiu-se-lhe perguntando-lhe se podia sentar-se. Educadamente André levantou-se, apontando para o banco!
- Minha senhora, queira fazer o favor de se sentar.
- Muito obrigado, respondeu-lhe ela.
- O Senhor costuma vir aqui?
­- Ultimamente tenho vindo, nostalgia…, disse André, com a saudade cravada na voz.
- Também já não vinha a este jardim há muitos, muitos anos, hoje senti uma vontade enorme de cá voltar. Quando era miúda, passei aqui talvez os melhores dias da minha vida, amei e fui amada.
André escutava as palavras daquela mulher, como se escuta-se a sua própria voz.
- Aqui, neste banco, recebi os maiores elogios que uma mulher pode ouvir, tantos planos de vida…
- Neste jardim muitos planos terão sido feitos, mas quantos se terão realizado? A vida por vezes é ingrata, respondia André.
- A vida não é culpada de tudo, nós também ajudamos o nosso destino! A voz daquela mulher era tão doce, a forma como dizia cada palavra, o calor que transmitia em cada frase. – Eu por exemplo podia ter sido muito feliz, mas optei por seguir a razão em vez do coração, resultado? Uma vida a pensar na felicidade que perdi. Construi uma família, mas nunca esqueci aquele que trazia no coração, agora…de que vale a lembrança, pouco, a vida já passou. Todo este tempo quem é que trai, a mim, os meus sentimentos, aquele com quem vivi uma vida, ou aquele que amei a vida inteira?
Ao dizer estas palavras levantou-se, André olhava fixamente à sua frente a árvore onde gravou os nomes dele e de Helena. A mulher afastando-se lentamente, disse-lhe, desculpa André…Ao ouvir o seu nome André virou-se num repente!
- Helena?
Mas no jardim apenas estava ele…”
Fotografia por: Tânia Silva

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